_ Pai, já sei quem é o meu bambi.
_ Já sabe o quê?
_ O bambi que eu vou matar, como pediu o nosso presidente. É o Bruno, da escola.
O pai achou interessante o senso de humor do filho. Quis entrar na onda:
_ E como você vai fazer isso, filho?
_ Vai ser com uma caneta. Na jugular dele. Acho que ele não vai sofrer muito, deve ser rápido.
_ Nossa! E quando a polícia descobrir?
_ Ninguém vai descobrir. Vai ser no intervalo, atrás da cantina. Além do mais, sou de menor, como você sabe. Tchau pai, tô indo...
_ Tchau, filho. Se cuida, hein?
Resolveu que iria limitar o acesso do filho àqueles blogs palmeirenses.
_ Amor, viu o Junior?
_ Vi.
_ Ele disse que vai matar um amiguinho da escola são paulino. Onde vamos parar, né?
_ Você deveria fazer o mesmo.
_ Ah, é, é? E quem eu deveria matar? O Dagoberto?
_ O porteiro.
_ O Torres? Ah, para com isso, vai. O Torres é gente boa pra caramba.
_ Gente boa? Como você é ingênuo...ele é a pessoa mais desprezível do mundo. Nunca reparou como ele sempre se levanta da cadeira e faz questão de mostrar a camisa do São Paulo quando você sai de carro? Pura ironia...
_ Amor, tenha paciência...
_ E os rojões quando o Palmeiras toma gol?
_ Ha ha ha...vai me dizer que..
_ Vou sim. Vem da janela dele. Já tive prova disso.
_ Tá bom amor...relaxa, tá bom? Tô indo...
_ Tchau.
“O pobre do Torres!”, pensou...”minha mulher tá precisando de férias...”.
Na saída do edifício, acenou para o Torres (que se levantou da cadeira, como sempre fazia) e tentou ver a camisa dele. Não era a camisa do São Paulo, como sua mulher tinha dito. Era uma camiseta comum, com algo escrito como “soberano”, ou coisa parecida, além de alguns números. Definitivamente sua mulher estava com problemas e, infelizmente, transferindo suas angústias para o filho...
Quarenta minutos de congestionamento foram suficientes para que ele decifrasse os números.
_Alô, amor?
_ É você, Roberto? Aconteceu alguma coisa?
_ Não, não...só tô me divertindo aqui no congestionamento...
_ Você tá bem mesmo? Tá com uma voz estranha...Por que tá ligando?
__ Nada, não. Só pra dizer que te amo...
_ Nós também te amamos, querido...agora preciso ir cuidar da casa, tá?
_ Então...
_ Então, o quê, querido?
_ Amor, o Torres tem filhos?
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